[BRAU] propõe uma instalação de imagens e ideias, a partir de conteúdo e suporte originais. O conteúdo parte do conceito brau (gíria baiana associada a um estilo estético suburbano, considerado brega, inferior. No livro BRAUS (2000), Ana Dumas, sua autora, imprime um novo significado à expressão, traduzindo o BRAU como sinônimo de BRASILEIRO UNIVERSAL. A estrutural funcional do carrinho multimídia imprime um caráter camaleônico à sua personalidade: ele pode ser decorado com imãs artísticos, adesivos, papéis com artes gráficas, luzes, monitores, pinturas. Sua cara será sempre a cara da ideia ou conceito que ele estiver expressando.No caso dessa pesquisa, sua cara será brau, de brasileira universal. Mas como é essa cara brau?
Embora tenha sido concebido em 2000 e tenha recebido propostas de publicação, o livro não foi publicado. Segundo Dumas, o formato para a publicação ainda não havia nascido porque para ela, aquelas ideias vivas, pulsantes, não cabiam nas dimensões achatadas de um livro. Era como colar uma borboleta nas páginas de um caderno adolescente.
Mas em novembro de 2009, Dumas criou o carrinho multimídia. Nascia um suporte interativo, múltiplo, mutante, móvel. O carrinho multimídia é uma estação de arte e comunicação ambulante, para uso em performances, intervenções urbanas, exposições ambulantes, aulas livres, dentre outras possibilidades.
CONCEITO BRAU
Os fenômenos artísticos e culturais são meios de identificar as transformações que acontecem no mundo e que nem sempre se fazem visíveis. Movimentos como o rock’n roll, o hippie, maio de 68, punk, a Soul Music, o Black Power, dentre outros, deram visibilidade a essas transformações, sinalizando a passagem do século XX para o XXI. As imagens desses movimentos influenciaram gerações do mundo inteiro.
Nos anos 70, estes movimentos chegaram a Salvador e, mais especificamente, o Black e o Soul Power provocaram transformações nos jovens negros das periferias da cidade. O Black Power é um movimento político de luta contra a discriminação racial e o Soul Power um fenômeno estético e musical que eclodiu nos guetos das grandes cidades americanas e que tem em James Brown um dos seus maiores símbolos. Ícones do universo pop mundial, eles influenciaram a criação de um estilo e expressão, nascido nas ruas de Salvador durante os anos 70: o brau.
O neologismo baiano brau tem origem na expressão brown, que por sua vez se refere ao estilo, música, modos e comportamentos dos negros norte-americanos durante as explosões do Black e Soul Power. Entre os browns soteropolitanos a expressão significava um elogio, sinônimo de “um cara revolucionário”. Quando se tornou visível nas áreas nobres da cidade, o brown virou, para a classe média, sinônimo de preto, brega, feio, pobre, inferior – mas essa mesma estética viria influenciar, anos depois, uma coleção de jóias comercializada pela H. Stern (Miscigens).
A transformação do brown em brau foi possível graças à fonética baiana e a influência de outros movimentos, criando uma cena com acento próprio, miscigenada, brasileira – foi da cena brau que surgiram os primeiros blocos afros da cidade, como o Ilê Aiyê e o Olodum, por exemplo, e o primeiro bloco com estética e discurso visivelmente miscigenados (a Timbalada). Esta transformação é uma evolução e também representa, neste documentário, a passagem do século XX para o XXI.
Originalmente alvo de preconceito estético e social na cidade, a expressão brau é reinterpretada por Ana Dumas (BRAUS, ensaio inédito, 2000) como “brasileiro universal”, imprimindo à expressão um caráter contemporâneo e valorativo.
A transformação do brau em brasileiro universal representa neste projeto um retrato do século XXI e da arte contemporânea produzida de maneira informal nas ruas de Salvador. São essas características que referenciam Ana Dumas na busca dessa identidade brasileira e ao mesmo tempo universal, idéia tema deste trabalho.
Mas como transformar conceitos em símbolos visuais, ícones, imãs, imagens, adesivos, performances, projeções? Como contar essa história de outra forma? Como contar essa história usando um suporte tão experimental?
A pesquisa BRAU tem influência de vários contextos e movimentos culturais: arte conceitual, pop art, tropicalismo, arte povora, arte punk, intervenção urbana, meios digitais.
Reprocessando tudo, sua proponente propõe o conceito de BAIXA RESOLUÇÃO como método de criação e disseminação de ideias, imagens, conceitos, sons: se você não pode filmar em película ou alta resolução, faça com a câmera do seu celular.
O CONCEITO DA SUA IDEIA IMPORTA TANTO QUANTO SUA RESOLUÇÃO!!